
Atualizado em 3 de setembro de 2026.
Diabetes tipo 5 é o nome novo de uma doença antiga: o diabetes causado pela desnutrição. Em abril de 2025, a Federação Internacional de Diabetes (IDF) passou a reconhecer essa forma como um tipo próprio, ao lado do tipo 1, do tipo 2, do tipo 3c e do diabetes gestacional. Este artigo explica, em linguagem simples, o que é o diabetes tipo 5, quem costuma ter, como ele é diferente dos outros tipos, como é tratado e o que isso muda para quem vive com diabetes no Brasil.
Resposta rápida
Diabetes tipo 5 é o diabetes relacionado à desnutrição. Ele aparece em pessoas magras, em geral adolescentes e adultos jovens, que passaram fome ou tiveram alimentação muito pobre na gestação ou na infância. O pâncreas não se desenvolveu direito e produz pouca insulina. Não é doença autoimune, como o tipo 1, nem resistência à insulina, como o tipo 2. O tratamento combina nutrição e, quando indicada, insulina em dose baixa.
O que é diabetes tipo 5?
O diabetes tipo 5 é a forma de diabetes ligada à desnutrição prolongada. A IDF descreve a doença como uma condição em que o pâncreas foi prejudicado pela falta de alimento adequado no início da vida e, por isso, produz menos insulina do que o corpo precisa. Sem insulina suficiente, o açúcar fica alto no sangue.
A doença não é nova. Ela foi descrita pela primeira vez na Jamaica, em 1955, e por muitos anos foi chamada de “diabetes tropical” ou “diabetes tipo J”. Em 1985, a Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou a classificar o “diabetes relacionado à desnutrição” como um tipo separado. Em 1999, a OMS retirou essa categoria, porque na época faltavam provas de que a desnutrição, sozinha, causava diabetes. Desde então, a maioria dos pacientes passou a receber o rótulo de tipo 1 ou tipo 2, muitas vezes de forma errada.
Em abril de 2025, no Congresso Mundial de Diabetes realizado em Bangkok, na Tailândia, a IDF reconheceu formalmente a condição com o nome de diabetes tipo 5. A federação estima que entre 20 e 25 milhões de pessoas vivam com essa forma de diabetes no mundo, sobretudo na Ásia e na África. Um comitê internacional foi criado para escrever os critérios de diagnóstico e as orientações de tratamento, que ainda estão em construção.
Por que a desnutrição pode causar diabetes?
Pense no pâncreas como uma fábrica de insulina. Essa fábrica é construída na gestação e nos primeiros anos de vida. Se faltam proteína, calorias e nutrientes nessa fase, a fábrica fica menor e com menos “máquinas”, que são as células beta. A pessoa cresce, vira adolescente ou adulto, e o pâncreas dela simplesmente não dá conta de produzir a insulina necessária.
Isso é diferente do que acontece nos outros tipos. No tipo 1, o sistema de defesa do próprio corpo ataca e destrói as células beta. No tipo 2, o pâncreas até produz insulina, mas o corpo não responde bem a ela, o que se chama resistência à insulina. No tipo 5, o problema é de “fábrica pequena”: pouca produção, mas o corpo responde normalmente à insulina que existe. O consenso científico publicado em 2025 na revista The Lancet Global Health descreve exatamente esse quadro: produção de insulina muito reduzida, sensibilidade normal à insulina, ausência de anticorpos contra as células do pâncreas e ausência de cetoacidose.
Quais são os sintomas do diabetes tipo 5?
Os sintomas são parecidos com os de qualquer diabetes descompensado. A IDF lista perda de peso, sede em excesso, vontade frequente de urinar, cansaço e glicose elevada. O que chama atenção é o perfil da pessoa: magra, com índice de massa corporal (IMC) em geral abaixo de 19, jovem, e com história de fome ou de alimentação muito pobre na gestação ou na infância.
Outro sinal importante é o que não acontece. Apesar do açúcar alto, essas pessoas costumam não desenvolver cetoacidose, que é a complicação grave e comum no tipo 1 sem tratamento. E os exames de anticorpos, que ficam positivos no tipo 1, dão negativos no tipo 5. É justamente essa combinação, pessoa magra, jovem, sem anticorpos e sem cetoacidose, que faz o médico desconfiar do tipo 5 em vez do tipo 1.
Qual a diferença entre diabetes tipo 1, tipo 2 e tipo 5?
| Ponto | Tipo 1 | Tipo 2 | Tipo 5 |
|---|---|---|---|
| Causa | Doença autoimune | Resistência à insulina | Desnutrição no início da vida |
| Peso | Variado | Em geral acima do peso | Magreza, IMC baixo |
| Anticorpos | Positivos | Negativos | Negativos |
| Cetoacidose | Frequente sem tratamento | Rara | Não costuma acontecer |
| Produção de insulina | Quase zero | Normal ou alta no início | Reduzida, mas existe |
| Tratamento | Insulina sempre | Estilo de vida e remédios, insulina se precisar | Nutrição, remédios e insulina em dose baixa quando indicada |
A tabela é uma simplificação para leitura rápida. Quem define o tipo de diabetes é o médico, com base em exames como o peptídeo C (que mede quanta insulina o corpo produz), os anticorpos e a história da pessoa.
Diabetes tipo 5 tem cura?
Não há registro, nas fontes consultadas, de cura para o diabetes tipo 5. O dano ao pâncreas aconteceu durante o desenvolvimento do órgão e não se desfaz. O que existe é tratamento, que busca controlar a glicose e corrigir a desnutrição que está por trás da doença. Por outro lado, as entidades apontam que o tipo 5 pode ser prevenido em escala populacional, com nutrição adequada de gestantes e crianças, combate à fome e controle de infecções repetidas na infância.
Como é o tratamento do diabetes tipo 5?
A IDF orienta que o tratamento não pode olhar só para o açúcar no sangue. Ele precisa cuidar também do déficit nutricional. Na prática, três frentes aparecem nas orientações internacionais e na nota da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD):
- Nutrição: alimentação com calorias, proteínas e micronutrientes suficientes, acompanhada por profissional. Sem isso, o restante do tratamento não funciona bem.
- Remédios por via oral: medicamentos que estimulam o pâncreas a liberar a insulina que ele ainda consegue produzir.
- Insulina em dose baixa, quando indicada: como o corpo responde normalmente à insulina, as doses tendem a ser menores do que as usadas no tipo 1. É por isso que a classificação correta importa: tratar um tipo 5 como se fosse tipo 1 pode levar a doses maiores do que a pessoa precisa.
Vale repetir: ainda não existe um protocolo oficial de tratamento. O comitê da IDF, coordenado pela endocrinologista Meredith Hawkins (Albert Einstein College of Medicine, Nova York) e pelo endocrinologista Nihal Thomas (Christian Medical College, Vellore, Índia), foi criado em 2025 para escrever esses critérios. Enquanto isso, o tratamento é decidido caso a caso pelo médico assistente.
Diabetes tipo 5 existe no Brasil?
Provavelmente sim, mas ninguém sabe quantos casos existem. A SBD publicou uma nota em 15 de abril de 2025 dizendo que não há dados de prevalência do diabetes tipo 5 no Brasil e que casos podem estar classificados como tipo 1, porque as duas doenças começam cedo e atingem pessoas magras. A entidade informou que aguarda as diretrizes internacionais.
Um dado ajuda a entender o cenário. O capítulo “Classificação do diabetes” da Diretriz da SBD, na edição 2026 disponível no site da entidade, tem última revisão datada de 14 de dezembro de 2023 e não menciona o tipo 5. Ou seja, a diretriz brasileira ainda não incorporou a categoria nova. Também não localizei, até 3 de setembro de 2026, portaria do Ministério da Saúde, protocolo clínico ou norma da ANS que trate especificamente do diabetes tipo 5. Circulam na internet textos dizendo que o tipo 5 foi “reconhecido oficialmente no Brasil”. Não encontrei fonte oficial que confirme isso, e por esse motivo não afirmo aqui.
Como saber o que vale para o seu caso
Cada caso depende da análise dos documentos médicos e jurídicos. Para tirar dúvidas sobre a sua situação, é possível buscar orientação jurídica individualizada pelo WhatsApp.
O que muda nos direitos de quem tem diabetes tipo 5?
Este é um site sobre Direito da Saúde, então vale olhar o tema por esse lado. Em resumo: a lei brasileira que garante insulina e insumos pelo SUS não escolhe tipo de diabetes, mas a lei nova de 2026 e os protocolos do Ministério da Saúde foram escritos para o tipo 1 e o tipo 2. Quem tem um diagnóstico diferente precisa de um laudo bem explicado.
- Insulina e insumos pelo SUS. A Lei nº 11.347/2006, art. 1º, diz que “os portadores de diabetes receberão, gratuitamente, do Sistema Único de Saúde (SUS), os medicamentos necessários para o tratamento de sua condição e os materiais necessários à sua aplicação e à monitoração da glicemia capilar”. A lei fala em “portadores de diabetes”, sem restringir o tipo, e exige inscrição em programa de educação especial para diabéticos (§ 3º). O que o SUS fornece hoje está detalhado em o que o SUS fornece para diabetes tipo 1 e em quem tem direito a insulina pelo SUS.
- Protocolos clínicos. Os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde existem para o diabetes tipo 1 e para o tipo 2. Não há protocolo para o tipo 5. Na prática, o pedido de insulina ou de insumos para uma pessoa com esse diagnóstico será analisado com base no laudo médico e na necessidade clínica, e não em um protocolo específico.
- A Lei nº 15.439/2026 é do tipo 1. A primeira lei nacional dedicada ao diabetes, publicada em 29 de junho de 2026, trata expressamente do diabetes mellitus tipo 1, e entra em vigor 180 dias depois da publicação, no fim de dezembro de 2026. Ela não cita o tipo 5. Isso não retira direitos gerais de quem tem outro tipo, mas mostra por que a classificação escrita no laudo tem peso jurídico. Os detalhes estão em quando a Lei 15.439/2026 entra em vigor.
- Plano de saúde. A cobertura de consultas, exames e tratamento do diabetes pelo plano não depende do tipo, e sim do que está previsto no contrato, na Lei nº 9.656/1998 e no rol da ANS. Uma negativa com base em “diagnóstico não reconhecido” merece análise, porque a doença tem código de diabetes e tratamento indicado por médico.
- O laudo é a peça central. Para qualquer pedido, no SUS ou no plano, o relatório médico precisa explicar o diagnóstico, os exames que levaram a ele (peptídeo C, anticorpos, IMC, história de desnutrição) e o tratamento prescrito, com doses. Um laudo genérico é o que mais atrasa a análise. Veja o que costuma constar em um relatório médico bem feito.
Diabetes tipo 3 e tipo 4 existem?
Essa dúvida aparece sempre que se fala em “tipo 5”. Se você quer começar do básico, veja antes o que é diabetes e quais são os tipos. Segundo a IDF, as cinco classificações reconhecidas hoje são: tipo 1, tipo 2, tipo 3c, diabetes gestacional e tipo 5. O tipo 3c é o diabetes causado por doenças do pâncreas, como pancreatite ou cirurgia no órgão. Expressões como “diabetes tipo 3” para se referir ao Alzheimer, ou “tipo 4”, são usadas de forma informal em artigos e reportagens, mas não fazem parte da classificação oficial da IDF.
Perguntas frequentes
Diabetes tipo 5 é grave?
Como qualquer diabetes, o tipo 5 pode causar complicações se a glicose ficar alta por muito tempo. A diferença é que ele raramente provoca cetoacidose, a emergência típica do tipo 1. A gravidade está mais na falta de diagnóstico correto e na desnutrição que acompanha a doença do que em uma crise aguda.
Quem pode ter diabetes tipo 5?
Pessoas magras, em geral adolescentes e adultos jovens, com história de desnutrição na gestação ou na infância. A doença é mais comum em países de baixa e média renda, mas a IDF alerta que refugiados e migrantes vindos de regiões pobres também estão em risco, mesmo depois de mudarem para lugares com mais recursos.
Quem tem diabetes tipo 5 recebe insulina pelo SUS?
A Lei nº 11.347/2006 garante medicamentos e materiais a “portadores de diabetes”, sem distinguir o tipo, mediante inscrição em programa de educação especial para diabéticos. Na prática, o fornecimento segue a lista do Ministério da Saúde e o laudo médico. Como não há protocolo específico para o tipo 5, o relatório precisa explicar bem o diagnóstico e a prescrição. Cada caso depende da análise dos documentos médicos e jurídicos.
Diabetes tipo 5 é a mesma coisa que diabetes tipo 1 em pessoa magra?
Não. No tipo 1, o sistema imunológico destrói as células que produzem insulina, os anticorpos costumam ser positivos e a cetoacidose é frequente. No tipo 5, o pâncreas não se desenvolveu por desnutrição, os anticorpos são negativos e a cetoacidose não costuma ocorrer. A confusão entre os dois é comum e é uma das razões pelas quais a IDF criou a classificação nova.
Fontes
- International Diabetes Federation (IDF). Type 5 diabetes. Consultado em 03/09/2026.
- International Diabetes Federation (IDF). IDF launches new type 5 diabetes working group, 15/04/2025. Consultado em 03/09/2026.
- Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). IDF reconhece nova classificação para o diabetes tipo 5, 15/04/2025. Consultado em 03/09/2026.
- Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Diretriz SBD, capítulo Classificação do diabetes, última revisão em 14/12/2023. Consultado em 03/09/2026.
- Wadivkar P., Jebasingh F., Thomas N. et al. Classifying a distinct form of diabetes in lean individuals with a history of undernutrition: an international consensus statement. The Lancet Global Health, v. 13, n. 10, out. 2025. Consultado em 03/09/2026 pelo resumo publicado, porque o texto completo não estava acessível de forma automatizada.
- Brasil. Lei nº 11.347, de 27 de setembro de 2006. Consultado em 03/09/2026.
Orientação e contato
Em caso de dúvida sobre o seu caso, é possível buscar orientação jurídica individualizada pelo WhatsApp.
Conteúdo informativo. Cada caso depende da análise dos documentos médicos e jurídicos. João Bruno Nascimento Borges, advogado, OAB/SE nº 10.726.